As sombras da noite e a vida que já não é

As sombras da noite assomam ameaçando os mais frágeis. A insónia, o pesadelo, o desepero é tremendo e medonho. Recusam voltar a ir para a cama para não serem assolados novamente pelos seus fantasmas. Envoltos no seus robes de papel,de tão usados que estão, esperam com a manta nos joelhos que amanheça para enfim descançarem no sofá por umas horas em que a luz do dia é parte da sua companhia e muita da sua confiança. As horas passam depressa, essas, em que a carícia da luz do sol e do cheiro da vida entra por entre as janelas entrabertas das casas e os bafeja de energia, que gastam até ao fim do dia.

Comem qualquer coisa a qualquer hora e ficam especados frente à televisão que os vai entretendo mostrando a vida dos outros, a qual integram como se fosse sua, e sentem-se vivos uma vez mais…amanhã é outro dia e o episódio da novela fica pairando no ar assim como o doce a que tiveram direito naquele dia, até que de novo a noite vem e vencidos pelo cansaço que os atira para a cama sem os deixar pensar, dormem até de manhã  acordando embevecidos pelo facto de estarem vivos.

 

 

”"

 

Suzzanne

LEONARD COHEN

Suzanne takes you down to her place near the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that she’s half crazy
But that’s why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from China
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you’ve always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you’ve touched her perfect body with your mind.

O estado das coisas

Não é fácil dar, quando não temos para nós mesmos….parece Lapalissiano, lógico e um sem número de coisas mais, mas de facto estar em défice emocional económico e etc, faz o país estar desiquilibrado e torna a vida das pessoas balanceante e frágil.

Nada mais acontece como outrora em que as únicas mudanças na vida coincidiam com a licenciatura, entrar na vida activa, ter um casamento com muita gente e fazer listas de casamentos sem fim, e finalmente ter filhos.
Uma vez alicerçados neste status, nada abanaria por longos anos a vida de qualquer português que se preze de ter tido a chance de ter cumprido o estipulado e esperado, pelos pais e pela sociedade.
Até à meia idade as coisas andavam, e a vidinha ia-se compondo para em breve ter mais uma casa onde se passavam fins de semana com amigos lá da empresa ou da escola e do liceu.
As coisas complicavam-se quando a saúde não ajudava, ou quando os filhos não cumpriam as espectativas dos progenitores.
Aí era tão complicado, que muitas vezes era o fim da relação familiar nos seus diversos contextos.
Como não fôra suficiente, na empresa as coisas deixaram de correr bem e gerava-se a catástrofe, a que não faltava o bode espiatório sempre culpado com a queda do império.

Actualmente é tudo mais rápido e as mudanças, catástrofes ou o que se queira chamar estão sempre a acontecer.
Nada mais é imutável e ainda que sejamos todos ou quase todos da era do facebook e das relações estabelecidas na e pela net, não nos apercebemos do que isso significa para a nossa vida.
Mostramo-nos surpreendidos, quando olhamos para o lado e o companheiro ou a companheira já lá não estão.
Aí perguntamo-nos o que fizemos para acontecer tal desastre e não temos resposta, porque por faz tempo nós próprios tínhamos já partido.
Estivemos com os amigos virtuais, reais ou o que seja, que do outro lado só concordam e dizem a tudo que sim.
Entretanto a realidade está ali com tudo o que conseguimos construir e parece-nos pouco, muito pouco mesmo, porque o calor humano esse, partiu.

Olhar em volta sem saber por onde começar para deixar de lado a estranha sensação de estarmos sós e mais sós ficamos quando nos apercebemos que os amigos com quem partilhamos parte do nosso tempo, foram-se, fugiram…mudaram-se para casa de outros com menos problemas e mais capazes de os entreter.

Reparamos então que para além de um monitor e mais umas coisas que ainda temos em casa, nada mais nos resta para dar.

Os limites

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Os limites estão quase sempre para além da idade. Pode sentir-se a vida inteira, assim como se pode sonhar e ter cumplicidades e sorrisos e ausências e amigos, até que a luz desapareça do nosso olhar.

Cada vez gosto mais, quero mais, sou mais…

e tudo isso porque tenho também mais idade. mas é bom, muito bom, mesmo.